“E abre alas para o carnaval de miséria. E da sarjeta que pode ser tudo que tenho, é de onde lanço o meu amor com toda a força. E as serpentinas hão de cobrir o caminho. E silenciosamente a marcha rufa a vida. Brava, bravarte, aquela que chega a ti.”
Na verdade, eu não sei bem como começar. A história vai apagando por si só e poderia eu pegar em qualquer um de seus pontos que ela simplesmente se desmancharia em minhas mãos. E a culpa de tudo isso é dele, e vejam bem, mesmo seus bem penteados grisalhos, mesmo seu bom pijama de navegador e todo o amor do mundo dado por sua neta, não o livraram da doença, a doença de não saber o nome das coisas.
Ele quase havia se esquecido do azul. Das nuvens e de um céu que cultivava toda sua vida. O céu lá fora começava a fechar diante de seus amendoados olhos e lutava para se manter aceso. Sua vida esvaía e aos poucos sentia a certeza cair como uma pedra, um literal ponto final. Não que se espantasse ou temia isso, temia mesmo é apagar o sorriso do amor em suas memórias, morrer estranhando o mundo que aprendeu a se apaixonar e deixá-lo partir sem ao menos conhecer...
As coisas não estavam nada boas, admito. No eletrocardiograma a vida oscilava, hora ou outra fugia na distância dos bips. —Senhor Russell?—A enfermeira crispou os lábios notando a temperatura convulsiva. Mas na verdade o velho Russel tinha a mente forte, o cenho franzia em tensão ao se concentrar, ele atropelava os pensamentos. Seus lábios tremeram enquanto calibrava sua voz. Bem, o que saiu não foi voz, mas dor. Uma traqueostomia e meia, capaz de calar até o mais bravo grito de coragem.
Pânico e mais uma tropa de angustia começou a corroer em seu peito. E o que sobrara, o que deveria viver estava em uma história que começou a ser contada para preparar seu fim. Um passado escorrido no gosto salgado de alma, uma lágrima solitária a manchar e consolidar aquilo que deveria ter sido.
. . .
Uma porta para chamar o passado.
Ele olhava pela vidraça, toda sua emoção vaporizava e embaçava o vidro ao qual ele tentava dificilmente costurar sua atenção. Ele era um medíocre, com olhos verdes embotados por um estado de miséria lastimável, seus cabelos loiros estavam trançados com piche e toda uma floresta de sujeira que tingia o asco de qualquer um que se aproximasse. Aquele era um restaurante requintado, cinco estrelas, o Gran Sasso. Com um guarda casmurro fazendo vista grossa e oferecendo mais uma surra caso o pequeno maltrapilho se lançasse contra os ares da alta sociedade.
O pequeno Russell devolvia com um olhar matreiro, com um riso sufocado enquanto limpava com a manga o vidro de entrada e foi assim, conseguindo ver o interior do lugar que seus olhos, então, se perderam. Lá estava ela. E o fôlego de seus pulmões entalou na garganta. Era linda e não porque mostrava ser simplesmente bela. Seu olhar quebrava a realidade, um sorriso forte e passageiro de quem não se deixa levar, mas que mostra uma ternura que transforma o mundo naquilo, num eterno brilho de poucos instantes. Seu olhar era difícil de roubar, parecia alheia, despercebida, até que o notou, um garoto de oito anos que a olhava sem medo, sem pressa e sem modos, um fitar brilhante e ousado de quem quer roubar toda a surpresa pra si.
Facilmente ela contrastava com tudo, não por ser de alta classe ou ter modos de quem tem as maiores consciências. Na verdade, ela valorizava tudo ao seu foco, mas não é como se realmente se importasse, se prendesse ali, o que ela era e simplesmente transcendia. —Liuba?—Disse seu acompanhante, ruivo e alto, com um fraque de quem aparenta voar para um sucesso milionário. Ela amorteceu o impacto voltando a atenção sonhadoramente para o restaurante. —Vamos?—E ofereceu sua mão.
Ela deveria ter seus quinze anos e para o pequeno Russel é como se deixasse o tempo pra lá quando a viu. Quando ela passou o aroma de La Caste precipitou no ar, seus cabelos como auréolas que faziam a noite raiar. O pequenino levantou a mão. Ela olhou e retornou com um sorriso. Só então o pequeno Russel percebeu que estava na chuva, no meio da rua, aos gritos da carruagem atrás dele. Seu coração pesou, talvez dentro dele, teria sido o fim de Liuba.
. . .
Sete anos se passaram desde então. E Russell agora carregava empenhos. O que? Carregador, um simples carregador. Usava uma boina agora, o rosto continuava sujo, mas agora pelo menos ele não vestia uma colcha de retalhos. Estava preparado para o frio, do mundo e de si mesmo. Luvas puídas, caixas feitas de madeira de lei mais pedadas que sua força e lá ia ele enchendo o caminhão da mudança. —Ei! Russell, dezesseis anos e ainda tem uma carinha de moça, hein? Ainda mais deixando essas madeixas loiras ai à mostra. O que acha de ir pra minha casa hoje a noite fazer um trabalhinho extra?
Seu patrão era uma espécie de agiota, nada melhor do que unir o útil ao agradável, um imobiliário e usurpador de bens. Russell riu. O homem não era de todo mal e as brincadeiras eram para quebrar o clima tenso do trabalho braçal. —Então diga a sua mulher para usar aquela camisolinha de que tanto gosto. —Todos os empregados riram. E o senhor Vladimir resmungou com um sorriso pregado e com um muxoxo ele acenou com a mão por cima dos cavalos, sentado no lugar do motorista da diligência. Coçou o grande bigode.
Com um grande bocejo o garoto sardento de 14 para 15 anos agora sentou atrás da carruagem de mudança encima das caixas. —Seu abestalhado, tem coisas pra quebrar ai!—Ele coçou o ouvido e disse por entre dentes enquanto se deitava, a carruagem partia. —Ah Vlad, não seja tão duro comigo, vá. —Ameaçava chover e os pensamentos do agora jovem rapaz percorreram os anos e encontraram os olhos da moça Liuba, a memória ainda era a mesma, até o cheiro parecia vivido.
A janela estava aberta com uma paixão diurna, você sabe do que quero dizer. Falo de um perfume leve, um aroma de flor quase impregnado que faz a alma voar... Seu peito aquecia com uma paz imensa. O olhar de Russell parou para olhar a entrada da casa, pôs a mão na cintura e respirou fundo. Aquele era um lar que desejava pra si. Os irmãos Bott e Bott trombaram de ombro com Russell o lançando para o lado, estavam carregando um piano nada leve e não se importavam muito no que pisavam, mesmo que fosse um Russell atordoado com cheiro de encanto no olfato e prazer nos olhos. O mais velho, digo, como eles eram gêmeos, os dois pareciam o mais velho, então... O mais feio. O mais sujo e abobalhado disse entre os dentes enquanto cuspia a guimba do cigarro. —Mais atenção ai filhote de porco.
É... Era hora de trabalhar. Sem reclamar demais com o peso e com as pernocas arriando, ajudou Willis com a caixa de cômodas. Estava tudo bem, o dia estava dentro das expectativas e do Hall de piso xadrez, ele assoviava, claro que irritava a todos e só precisavam de um pretexto pra que o fizessem engolir seus agudos e não demorou a dar um bom motivo. Ele desequilibrou subindo as escadas—Droga, Russell! Guarde logo esse assovio e ajude com um pouco mais de força nesses espetos de braço. Oras!—Ai sim, ele engoliu o assovio e sorriu amarelado.
Desastre mesmo veio em seguida. Ele empurrava um armário vitoriano escada acima e viu de relance. Bastou para fugir as forças, bastou para que todo um peso de quilos e amarras desandasse sobre ele e deslizasse aos trambolhos escada abaixo. Os olhos arregalados, o peito fugindo do compasso. Era como se voltasse ao ponto de fazer a vida lhe reger. Como se tivesse partido para dentro de suas memórias. Acima das escadas, não preciso nem dizer. Estava seu coração.
. . .
Uma xícara de café fumegante. Algumas ataduras e uma compressa firmavam Russell de volta a consciência. Uma piscadela. E viu lareira acesa, cama dos fundos, fim de tarde à beirar nos vales de sol. –Ahh, eu... —Ela acendeu as luzes da luminária numa potencia não saudável. —Ai!—Ela olhou para o garoto com desdém. O olhar dela continuava o mesmo, com aquele brilho perigoso. —Sim, você desmaiou na queda. Ganhou um galo. E levante logo daí. Não cuido de criados. —Disse ela batendo palmas. O corpo estava muito pesado, febril. —Sim senhora. —A compressa caiu da testa para seu colo quando se pôs sentado.
Ele atravessava o Hall até que aquela voz encheu o ambiente. —Senhor Finnigan. —Segundo nome de Vladimir.—Disse que o senhor não vai receber desta vez. E terá que se empenhar num horário extra para recuperar seus ‘estragos’. —Disse ela com uma piscadela. Ela era cruel, afinal. Russell fungou. —Obrigado, senhora. —E abriu as portas da entrada. —E garoto. —Tornou ela uma ultima vez. Russel olhou sobre o ombro como quem se desencantara. Uma lira, uma moeda de ouro cobriu a direção entre eles e pousou na mão do rapaz. A porta se fechou. Ele apertou a moeda de ouro na mão renovando o fôlego do peito. E olhando para os céus, aquele nome soou como maresia. —Liuba... —Um sorriso de festim iluminando a poesia da vida.
. . .
E ele nunca se esqueceria daquele dia quente de novembro. As chamas que crepitavam na lareira ainda ardiam em seu peito enquanto corria sem olhar para frente, para os lados, fixo a olhar sua fé fluir nas veias. Felicidade, da forma mais pura que se possa encontrar. Um amor tão distante e puro, uma força que podia machucar e abalar as estruturas, limites da humanidade que ele carregava e toda a certeza que trazia. E não temia, o máximo que chegava do seu perigo era tremer na vontade, no desejo de querer bem, se achar simplesmente nas lembranças, no passado que viveria em alguém, alguém que seja... Que seja ela.
Como pudera a vida se entrelaçar dessa forma? Então é tudo natural, exatamente como deveria acontecer, não? Sem precisar desvendar os mistérios. Tropeços. Uma grande onomatopéia para preencher o armazém. —Mas esse garoto anda no mundo da lua, porra?!—Bufou Finnigan ajeitando o chapéu de coco na cabeça. —Fique longe da vidraria, rapaz, ou te faço limpar com a língua a bagunça que fizer. —E apontou o dedo gordo para fora da sala. —Ande logo, descarregue a carroceria da ultima leva e pode ir para seu albergue curtir seu galo. —Findou a chefia assinando seus papéis. —Ahn, senhor...? —Um urro. —Vá logo, caralho!—Russel desceu as escadas sem pestanejar, mais apressado que um Bott atrás de dinheiro, além do mais, discutir? Pra quê?
Nos últimos degraus... Mais uma intercessão. —RUSSELL!—Bem, lá ia o loiro voltando para a sala do não mais humorado, Vlad. Enfiou só a cara para dentro da porta. —Senhor?—Ele acenou com os dedos roliços. —Venha cá. —Arrastando os pés, o garoto se aproximou até a mesa e olhou uma caixinha, um quadrado de mogno negro, com uma alavanca, como a de um relógio de corda. —Esqueci de entregar essa peça para a senhorita Thortsen, seja útil pelo menos uma vez e leve para a casa dela, sim? Sem quebrar!—E entregou a caixinha de musica nas mãos calejadas do garoto. —O senhor está precisando de uma massagem. —Disse o pequeno de forma sarcástica. —Fora daqui!
Ele desceu as escadas rindo, segurando a pequena caixinha como se fosse de fel. Passou pela serralheria, já estavam terminando o serviço do dia. —Esse garoto não trabalha não, é?—Disse Willis levantando a cara do forno de carvão, sujo que era uma beleza. —E você deveria se preocupar mais com o SEU serviço, senhor, que, aliás, sua chapa está derretendo... —Gotcha!—Merda, mil vezes merda!—Disse ele voltando a atenção para a ultima solda. Aquele era um bom lugar, afinal.
A lua já apontava nova e limpa no céu. Russel espiou, antes de voltar à entrega foi para o beco ao lado do armazém e abriu a caixa. Uma bailarina, uma canção de ninar e o maior encanto de todos reunido no olhar do garoto. —Nossa. —Seu coração esmaeceu como orvalho diante do calor do sol. Demorou um pouco pra tomar as rédeas da consciência e se tocar que já estava a cinco minutos olhando em transe o pequeno adorno de sala de estar. Os sinos da igreja soaram. —Ah, droga. Já são oito horas!—E saiu em disparada.
Trompetes e serenata noturna. A doce melodia melancólica que banha os corações. Uma trupe de músicos se apresentava na balaustrada da prefeitura. Um violino desfiando com um calor ameno, o som percorria a praça inteira. As flores ao redor da fonte, a fonte esbanjando luz. A luz iluminando o silêncio. E um Russell apaixonado platonicamente, correndo, com toda a vida a se mostrar pro mundo. Passou ao lado do Sr. Thortsen sem ver, ele assistia de camarote a apresentação e mesmo assim o destino pediu, para que assim fosse, para que ele se encaminhasse a casa de Liuba, só os dois, conveniência? Talvez, mas o que é pra acontecer se afirma sem a pressa do tempo.
Ele abriu os portões de grade do casarão, passou pelo bosque que havia trabalhado mais cedo e de noite, tudo parecia tão mais, concreto. A primavera parecia se materializar ali, um arco-íris de cupidos de mármore, flechas apontadas para todos os lados. Ele bateu na porta de entrada. Ouviu um abafado. —Entre!—E então abriu a pesada porta da arcada com um empurrão. Somente as velas curtiam o lugar com uma luz desbotada, entrou aos passos cuidadosos, encarando aquilo como outro mundo.
As cortinas torpedeavam ao baile do vento. Ele passou pelo corrimão e estacou encima de um diário, letras femininas, acabamento passional. Obra direta do coração, oras! Como ignorar aquilo ali! Aos olhos do acaso. E resistiria ele de uma simples espiada? Saber o que se guarda dentro do âmago de um tesouro? Seria burrice e arrependimento e isso, a vida não dispunha, só podia agora e assim. Primeira página e. —Querido?—Ela se lançava em direção ao corredor. No susto, o pequeno Russel colocou o diário embaixo da blusa, ele, um simples serviçal pego na iminência de um ato sujo? Açoite seria o mínimo. O olhar da agora moça se fechou em desconfiança. —Quem é você? O que faz... —Seus olhares se cruzaram, num segundo, um mundo. Ele tomou a surpresa toda pra si mais uma vez e tudo pareceu parar, ela mostrou o que realmente era por uma fração... E então se perdeu no brilho zombeteiro do seu costumeiro olhar. —Ah, o menino-desmaio de mais cedo. O que você quer?
Ele ficou nervoso, gaguejou uma série de letras. —Eu, bem... Duh.—Ela deu um risinho e desceu as escadas. Mãos na cintura, vista grossa, tornando as coisas muito mais difíceis. —Eu só vim trazer isso, senhora... —E mostrou a caixinha que havia sido aberta no momento por nervosismo do garoto. Cheiro de lavanda e um garoto vermelho a olhar para uma mulher em seu roupão noturno. Ele colocou a caixinha na mesa, deu um passo em direção a saída, hesitou. —M... Me desculpe.—E saiu na maior turbulência que seu coração poderia provocar até então.
Apoiou-se contra os muros fora da casa, respirou pesadamente enquanto olhava para o céu. O coração ainda retumbava. As folhas da trepadeira do muro pinicavam na sua pele sem que ele se importasse ou notasse. Partia em todo seu fôlego, parecia que o mundo atrás dele se desfazia. A música da praça já havia terminado, os músicos guardavam seus instrumentos, as pessoas comentavam dentro de suas gravatas, pendurando-se em seus bigodes engomados.
A beleza se esvaíra de seu olhar. A lua não mais existia no céu e sem notar mais que a própria angústia ele abriu a porta com um supetão, a porta de madeira gemeu e aos pulos, atravessou os degraus de dois em dois. Ele morava no sótão de um albergue, pratos e roupas limpas em troca de um forro sem infiltrações. Ele bateu a porta do quarto e deslizou contra a parede, caindo sentado no chão de tablados de madeira. E então chorou penosamente até deixar a dor manifestar uma de suas portas do esquecimento, o sono.
. . .
Uma semana e tudo estava anestesiado. Seus olhos verdes se apagavam aos poucos tomando um tom amendoado, o diário havia sido esquecido na cabeceira da cama. Era um sábado corrido de feira em toda a avenida principal e as carroças trotavam ao conjunto dos gritos de oferta. Sorrisos, sorrisos e um Russell com consciência em frangalhos sem energia sequer para um espirro. O clima estranhava, alguma tensão estava se montando sem que ele percebesse. Em seus pensamentos estava um dia inteiro de trabalho, um extra e chegar a casa nas primeiras horas da madrugada.
A primeira de suas impressões a olhar a entrada do armazém foi: Branco. Uma corja de aves da medicina estava aprumada em seus óculos, deveriam ser três médicos, todos deveriam ser clientes do senhor Finnigan. Um homem de favores tem suas vantagens. Aproximando-se ele percebeu que todos os empregados estavam perplexos, com um olhar atônito e inquieto, com olheiras e súplicas.
Algo estava muito, muito errado ali. Russell atravessou o cercado, tirou a boina e olhou com estranheza para um dos Bott que havia acabado de falar com um dos médicos. Ele segurou nos braços do jovem com uma ternura e uma paternidade que até então não havia sido capaz. —Garoto, hum, não sei como lhe dizer... Ainda mais pra você... —Ele tirou o chapéu e coçou a auréola careca de sua cabeça e torceu a cara com dificuldade. —O Sr. Finnigan passou mal hoje, caiu... Ele enfartou. Ele... Foi embora. —Vento. Vento forte e um céu que não poderia estar tão bonito num dia como aquele. —Han?—Bott perdeu a força, soltou os braços do pequeno e repôs a boina cáqui e ajudou nos preparativos entrando no rabecão. Tudo se desmanchou.
. . .
Ele não foi ao enterro. No andar de baixo um piano tocava um som triste e delicado. Havia chegado à casa de noite, ele nem sequer sabia por onde tinha andado, a mente se desliga quando a dor é forte demais. Escorou-se no parapeito da janela e respirou pesadamente, por onde sua vida estava indo, afinal? Acendeu as velas do quarto, apanhou uma bola de retalhos que costumava brincar quando mais novo e a tacava para cima enquanto pendia a cabeça para trás. A cabeça encolhendo aos poucos. Um mal-estar ácido na garganta com hálito desgostoso.
No canto, algo chamou sua atenção, um livro já meio esquecido, um livro coberto de luto e que já nem importava tanto agora. Uma culpa que parecia ridícula no momento em que percebeu que existem tantas coisas a mais para se preocupar. Desceu a escada dobrável do sótão e descalço foi até a cozinha, um copo de água e um pão dormido. E voltando ao quarto colocou o copo no criado mudo. Pegou o livro e abriu junto ao peito enquanto mordia o pedaço inteiro de pão duro enquanto folheava. Seu olhar se deteve no primeiro título.
“Um motivo vermelho para se encontrar”
Ele ficou inquieto, olhou para o lado e desconfiado começou a ler.
“Não importasse minha idade, eu estava com sete anos e nenhuma memória, nenhuma palavra poderia ter sido tão bem guardada pelo meu coração. Minha vida era como sempre a mesma, os mesmos sonhos, os mesmos olhares e mesmos pais. Estava no parque perto da Main Square Boulevard no balanço, perto do hospital geral. E não sabia o que era morte e conseqüentemente, nem a vida.
Ele veio com toda morte para mim e o sorriso mais vivo que poderia ter. Devia ter seus setenta anos bem vividos, sem arrependimentos, me observava dentro de sua camisola hospitalar com olhos vidrados, mas serenos. Estava com uma manta vermelha envolto ao ombro para proteger suas artrites do frio. Ele emanava uma paz que não podia se julgar. Caminhava com pantufas sobre as folhas secas do outono. Tinha olheiras profundas de quem estava sofrendo, um olhar de quem queria descansar.
Percebendo que olhei para o manto dele, ele o desenrolou atrás de si, deixando-o correr até as canelas. Uma capa, um herói... Assim que lhe olhei torto, admirada e desconfiada, dei de ombros como quem não quer nada, sempre olhando de esguelha para ele. Ele se aproximou aos poucos sentando no gira-gira. Hoje penso, que estranho, não gritei pela minha mãe na aproximação daquele estranho, ele tinha algo, eu sei... Logo saberia qual era o papel dele ali e aqui em mim até hoje.
Elevei no balanço, com mais força. Mostrando que eu era forte, que não precisava me importar. E caí. Do chão gelado de grama molhada, seu olhar pairava sem nenhuma reação, só um sorriso contemplativo de um senhor que parecia de todo sentimento saber. Ele disse. —Mantenha seu coração. —E então tirou seu manto e colocou em meus ombros, depositou então seu herói em mim, foi assim, simplesmente, que ele comprou meus sonhos, um simples gesto de carinho que moveu para sempre as grades do meu ser.
Tentei achá-lo na semana seguinte no hospital e soube que o senhor Hans, meu herói, havia morrido dois dias depois, a peste já o havia corroído por dentro antes mesmo de chegar a mim, ele já estava morto, seu ultimo fôlego de vida, eu sei. Foi o que havia me dado e foi... Uma simples palavra, um simples...”
A página estava manchada, Russell sabia que ela havia chorado ali. Seu peito sufocou. Como pôde roubar aquele diário, como pôde... Escondeu a face nas mãos. A garganta entalada não conseguia gritar, lágrimas corriam. Colocou o diário novamente no criado mudo e balançou o corpo em posição fetal, o pão estava largado na cômoda também. Até que ele se despercebeu de si, as memórias foram se apagando, ele estava se esquecendo...
. . .
Ele estava com vinte e cinco anos agora. Os olhos completamente amendoados. Uma barba aparada por trás de um rosto mórbido, saliência cavadas, seu cabelo cresceu até o ombro, a testa estava enrugada. Russell assinou o resto dos papéis. O silêncio tomava conta de tudo, até da sua felicidade que não mais se manifestava ali. O armazém havia prosperado, virado uma cooperativa. Uma grande horda de trabalhadores e um bom salário para todos no final do mês. No testamento estava que ele tinha a herança de todo o armazém, mas tudo o que o senhor Finnigan um dia acreditava, em todo o garoto que existia em Russell... Morreu com ele de enfarte fulminante.
Willis entrou pela porta, parecia desolado, estava quase completamente grisalho agora. Havia cortado seu bigode e mostrado uma boca sulcada de velhice. Segurava o chapéu sobre a barriga e olhava com timidez para o agora bem apessoado Sr. Russell. —Ch-Chefe?—Sem tirar os olhos dos papéis o homem da escrivaninha tornou. —Sim, Willis?—O homem que um dia fora como um tio para o pequeno Russell agora tinha vergonha de falar. —Minha mulher, ela está de resguardo do ultimo parto, você poderia... —Russel sorriu tristemente. —Willis, vá para casa, sua família precisa de você. Diga um alô para a Molly por mim, sim?
E continuou com sua atenção para a papelada. O olhar de Willis pairou na figura triste do homem sobre aquela cadeira e imaginou a criança que ela ainda era ali... Presa em algum lugar. Colocou o chapéu e se entristeceu. O pequeno Russell... O coitado homem de negócios que havia vendido sua vida. Ele hesitou. —Senhor?—Ele ergueu os olhos da mesa, por cima dos óculos de meia lua. —Sim, Willis?
Ele se aproximou acanhado. —É que meu sobrinho... —Russell sorriu. —Vladimir?—Perguntou ele descansando a caneta. —Sim, esse mesmo. Bem, ele vai se apresentar esta noite. E. —Willis colocou um ingresso na mesa de cortesia. —Ele queria pelo menos agradecer a ti por ter acreditado e investido na carreira dele... Ele queria que o senhor fosse a sua primeira apresentação... —Russell suspirou cansado. E abriu os braços para a mesa mostrando o trabalho a ser feito. —Lamento Willis. Eu... —hesitou. —Você sabe... —Willis deixou o ingresso e saiu pela porta dizendo por fim. —Eu? De ti... Eu não sei de mais nada senhor... —E desapareceu pela porta.
. . .
Noite do mesmo dia. Ele estava inundado dentro da sua papelada, todos já haviam ido, ele estava vendo que estava perdendo sua vida, pouco a pouco. Descansou os óculos e espreguiçou. A noite caía pesadamente atrás dele pela janela. Coçou os olhos e olhou para o relógio de bolso. 21h15min.—É sábado, afinal.—Colocou uma cartola, um ingresso no cós da calça e sorriu. Ele tinha um espetáculo para ir. Estava bem atrasado e pagou uma gorjeta generosa ao condutor. Entrou no teatro completamente desajeitado.
Alguns resmungos de indignação e logo ele atravessou umas fileiras, foi para a primeira fila. Molly estava pálida, mas estava lá com todo seu orgulho. Vladimir estava lá, maquiado, incrível. Do fundo do peito Russell pensou: como poderia perder aquilo por alguma coisa? Como poderia um trabalho ser mais importante que aquilo? Ele estava velho no palco, estava imbatível, com uma...
O coração gelou.
Vladimir estava com uma capa vermelha nos ombros, a protagonista. Liuba Torthsen. Aquilo tudo para Russell... Lágrimas abriram todas as cicatrizes do seu corpo. A peça era... Deus. Russell se levantou num pulo e começou a driblar os assentos. Willis estranhou o amigo. —Russel? Ei, o que foi?—Ele já estava na saída, com um bater de portas, a criança que havia dentro do homem de negócios começou a acordar dentro dele.
Passou pelo Gran Sasso e parou enfrente a ele. Ficou olhando, o peito acalmando, agora ele sabia o que deveria fazer.
. . .
A peça havia terminado, a família de Willis estava transtornada com o acontecimento e pedia desculpas a Liuba, era seu ultimo show. Estava se aposentando agora, tinha que cuidar de perto da sua filha agora com cinco anos, o marido, bem mais velho, já havia morrido, também de peste negra. Ela queria dar uma tutela exemplar, a mesma herança francesa que recebera. Mas estava abalada, havia visto um rosto na platéia que há muito havia se esquecido. O garoto matreiro do Gran Sasso.
Estava de braços dados com Vladimir, agora com seus dezoito anos. Elogiava abertamente e o constrangia de forma bem efetiva. No final da rua a luz dos postes a silhueta arqueada de Russell, todos calaram. Ele tinha um olhar grave, importante, preocupando a todos. Ele se dirigiu até Liuba e depositou em suas mãos o diário. Um há muito perdido e esquecido. Ele sorriu. Virou-se e abriu o guarda-chuva e voltou pela estrada de ladrilhos. Disse simplesmente. —Mantenha seu coração.
. . .
Muito havia se falado do desaparecimento do Sr. Russell. Sem vestígios, sem histórias. Sem memórias.
. . .
Seus olhos brilharam verdes só mais uma vez. Ele olhava para a manta vermelha que lhe cobria. Ali ele se lembrava pela ultima vez. Porque na verdade, ele quase havia se esquecido do azul, mas do vermelho... Não, era sua vida. Sua neta de adoção lhe olhava tristemente, quando viu que ele olhava, saiu apressada pelo corredor para que ele não a visse chorar. Ele era um homem bom e um bom homem.
Seus bem penteados grisalhos se desarrumavam. Ele se livrava da aparelhagem médica, tirou a intravenosa do soro, a máscara de oxigênio. E correu seu último fôlego. A capa vermelha esvoaçando atrás de si e tropegamente descia as escadas. Gritos nos corredores, enfermeiras entrando em caos. Abriu a porta e mais uma vez, sol. Deixou para trás uma traqueostomia, suas dores, seus medos. Ele entrou no jardim, o parque exatamente como devia ser e lá, lá estava. Uma garota de cabelos castanhos a se lançar no balanço. Ele se emocionou.
Pisava na neve descalço, se aproximava penosamente. Seu peito não agüentava mais. A garota se levantou do balanço e olhou para Russell desconfiadamente. Ele não conseguia falar. A morte começou a escurecer perto dele. Cedeu de joelhos. Levantou a manta vermelha rente à visão da garota e caiu de costas na neve... Seus olhos verdes piscavam. Uma voz distante disse. —Beatriz? Venha, venha logo!—Era a mãe da garota chamando, a pequenina tinha quatorze anos e algo de muito, muito familiar.
Ela agachou ao lado de Russell. Quando ela foi tocar no velho senhor para ver se estava tudo bem, sua mãe apareceu. Uma senhora de alguns anos a mais que o próprio Russell, cabelos pretos frisados com grisalhos. Era ela, ela estava lá e ela mantinha seu coração. No chão, o homem que uma vez comprara seus sonhos na infância e aos poucos, assim, sem promessas de um final feliz. Os olhos verdes luziram fechando as cortinas. Herói.
É, eu realmente não sei como terminar, a história vai apagando por si só e eu poderia pegar em qualquer de seus pontos que ela simplesmente desmancharia. Bem e a culpa... (...)
Lucas Augustus.